Coisas surpreendentes acontecem

O excesso de comunicação em que vivemos não permite ao leitor de um jornal que se detenha numa notícia para refletir sobre sua essência. Outra, logo adiante, já reclama sua atenção.

Dentre essas recentes notícias, precisei anotar, para não esquecer, alguns fatos que considerei merecedores de uma releitura ou, até mesmo, dignos – cada um por si – de uma crônica específica.  Dou, portanto, uma ré nos últimos noticiários para os destaques que se seguem.

Por furto de apenas um celular, um jovem de 25 anos é amarrado num poste e linchado pela população. É pena de morte instantânea. Nos Estados Unidos, para um bandido ser executado, todos os recursos são exauridos, além dos protestos e apelos ao governador do Estado em que ocorrerá a execução, tudo depois de alguns anos do cometimento do crime. No Maranhão e no Brasil, a execução é sumária. 

Ladrão com elevado senso de humor. Um ladrão roubou uma moto, em Russas (CE), depois a devolveu, com o seguinte bilhete: "Ajeita essa porqueira. Não dá nem pra fazer um assalto. Não serve nem pra botar lixo, seu fulero. Compre uma boazinha. Valeu, compadre". 

Um bêbado invade o velório da vizinha e dana-se a morder a defunta com voracidade, até ser contido pelos presentes. Qual o mistério dessa raiva?

Morreu e levou a mulher com ele. Assim poderia ser a manchete deste caso: ao levar o marido defunto para ser enterrado, o carro da funerária bate em outro, na estrada, e a viúva recebe uma pancada do caixão e morre na hora. Entre os envolvidos no desastre – o motorista, a mulher e o filho – só ela perdeu a vida.
  
Um ladrão deu um tiro num cidadão que, mesmo ferido, conseguiu dirigir seu carro e imprensou o ladrão  e a sua moto. Com as pernas presas, o ladrão gritava: "Me ajude, sou um ser humano. Minha perna torou". Ninguém ligou para o pedido de socorro, até a polícia chegar. 

Os desempregados sempre buscam, nos Classificados, alguma notícia de emprego. Surpreendeu-me encontrar ali, com letras destacadas, este apelo: "Meu sonho é trabalhar na Vale". O autor, desempregado, usou com inteligência aquele espaço para ofertar seu trabalho, cansado de tanto esperar. Será que foi atendido?

O governo inglês já gastou mais de dez milhões de dólares para manter a polícia, dia e noite, vigiando o jornalista australiano Julian Assange, defronte da embaixada do Equador, em Londres, onde ele está confinado há mais de dois anos, para não ser preso por conta de um pedido de extradição da Suécia, sob acusação de um duvidoso abuso sexual cometido por ele porque manteve relações com uma mulher sem usar preservativo. Inglaterra e Suécia são dois países em que o estado de direito é exemplar. E estão atendendo o pedido de outro país, onde os direitos individuais são mais respeitados: os Estados Unidos.  Difícil entender essa obsessão. 

No dia 17 de setembro, no meio do caos da Penitenciária de Pedrinhas, entre fugas e o corre-corre da polícia, eis que um maluco apaixonado abre uma faixa, na frente do prédio, com estes dizeres: "Eu te amo Lucimar. Larga de loucura, que louco sou eu".  Foi, assim, como um raio de luz naquela escuridão.

O último fato é o mais sério e, até mesmo, revoltante. Nos Estados Unidos, um pai desnaturado leva sua filha de nove anos para uma escola de tiro, com o objetivo de aprender a atirar numa metralhadora AK47. Por uma manobra equivocada e pela fragilidade da criança, os tiros se voltam contra o próprio professor, que morreu na hora. Presente no local, o pai da menina assistiu à consequência de sua irresponsabilidade.

Mas, apesar dessa tragédia, apesar de sucessivos assassinatos em colégios, o americano não se sensibiliza com os apelos de presidente Obama para limitar o comércio de armas. O lucro do mercado vale mais do que as vidas ameaçadas. Fiquei imaginando, quando essa menina atingir seus dezoito anos, o que ela buscará fazer para alimentar seu desejo de emoções? Se continuar sua fixação em metralhadora, seus colegas de colégio estarão perdidos.

Como diz meu primo Ubaldo, o mundo virou de cabeça pra baixo. 

Publicada no Estado do Maranhão, em 2 de outubro de 2014.

Por: Lourival Serejo

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Lourival Serejo

O desembargador Lourival de Jesus Serejo Sousa nasceu na cidade de Viana, Maranhão. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em 1976, especializando-se em Direito Público, pela Faculdade de Direito do Ceará,
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