Chagas, poesia e metáforas da vida

Hoje é aniversário do Poeta: 90 anos. O primeiro aniversário sem sua presença física. Sua imagem paira sobre os telhados de  São Luís como o sereno de uma madrugada fria de abril.

Lembro-me de uma visita que fiz ao Poeta, assim que ele chegou do hospital, depois de recuperar-se de uma crise séria de saúde. Daquela vez resistiu. Encontrei-o mais animado e, como sempre, pontuando de humor e ironia a sua prosa de bem falar.

Em certo momento da conversa, ele veio com esta tirada metafísica: a gente passa metade do tempo sem se preocupar com a vida e a outra metade só pensando nela. Remédios, dietas,  médicos, tudo para cuidar da vida na sua segunda fase. Goste da velhice quem quiser, mas não eu.

No canto do quarto, sobre uma mesinha, deparei-me com o seu saxofone. Era só um enfeite, uma lembrança, mas continha uma significação que ia mais além. Aquele instrumento musical era o testemunho da primeira fase do Poeta, quando música e poesia se misturavam em metáforas sonoras que faziam a felicidade do Poeta e de seus amigos. 

Na cama, alguns livros espalhados, de aquisição recente, mostravam temas voltados à discussão sobre Deus. Explicou-me ele que estava envolvido com a busca de uma resposta a esse mistério que o atormentou a vida toda. Seria a premonição de que seu encontro com Ele estava próximo?

Chagas foi e é um presente que a Paraíba deu ao Maranhão, especialmente para a cidade de São Luís, onde fixou residência definitiva.

Neste aniversário de saudade, não se pode deixar de reconhecer a importância da poesia chagueana para a formação do leitor maranhense. Cantando os mirantes, nossa história, nossas glórias e nossas mazelas, Chagas engrandeceu o universo poético maranhense, desviando-o da perplexidade do canto do sabiá para ouvir outros clamores, outras dores, outras mensagens. 

Com suas crônicas irreverentes, profundas e humanas, ele nos fez chorar, sorrir, vibrar, indignar-se, sem deixar de auferir a beleza da sua prosa. Sua pena deslizava como a maciez da sua educação, da sua santidade, aquele élan de serenidade que espargia à sua volta.

No dia do seu aniversário, torço para que Deus se inebrie com os cantos do Poeta e com a sua lavoura de  palavras da cor do céu.

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Lourival Serejo

O desembargador Lourival de Jesus Serejo Sousa nasceu na cidade de Viana, Maranhão. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em 1976, especializando-se em Direito Público, pela Faculdade de Direito do Ceará,
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