Aluísio Azevedo e Mario Vargas Llosa

Quem conhece a biografia desses escritores sabe que ambos são mestres na ficção. Mas a distância que os separa (Aluísio Azevedo morreu em 1913) marca também a diferença de suas obras e respectivos estilos. Como se diz comumente, guardadas as devidas proporções, são dois ícones da literatura.

Mario Vargas Llosa é hoje um dos maiores escritores da América Latina e da literatura hispano-americana, sendo conhecido em todo o mundo pelas suas obras, conferências e prestígio. Peruano de nascimento, logo consagrou-se na literatura pelo conjunto de suas criações tão bem estruturadas, a exemplo de Conversas na Catedral (1969), um verdadeiro monumento de romance. Antes, publicou Batismo de fogo (1963) e A casa verde (1966). Seguiram-se outras obras do autor, todas com merecida aceitação pública. Recentemente foi lançado no Brasil Cartas a um jovem escritor.

Em setembro, foi lançado pela Objetiva seu último romance, Travessuras da menina má, que já veio para o Brasil como um best-seller espanhol.

Mas o livro que pretendo me referir aqui é A guerra do fim do mundo, escrito em 1981. É por esse livro que buscarei aproximá-lo de Aluísio Azevedo.

Em A guerra do fim do mundo, Vargas Llosa tratou da Guerra de Canudos, da figura de Antônio Conselheiro e de todos os aspectos sociais e políticos daquele episódio. A tradução brasileira desse livro foi publicada, em 1981, pela Editora Francisco Alves, com 553 páginas.

Escrever esse romance, o romance da Guerra de Canudos e de Antônio Conselheiro, era um dos sonhos de Aluísio Azevedo. Esse detalhe da vida do grande escritor maranhense é mencionado pelos seus biógrafos Raimundo de Menezes e Jean-Yves Mérian. Segundo estes, em confidência a Afrânio Peixoto e Rodrigo Otávio, Aluísio Azevedo planejava escrever um romance em que enfatizaria o messianismo e o fanatismo religioso presentes em Canudos. Nessa época, estava ele como cônsul do Brasil, em Nápoles.

Por já ter morado na França e por ali passar constantemente, cheguei a imaginar que o autor de Tia Júlia e o escrevinhador tivesse lido a biografia de Aluísio Azevedo, escrita por Jean-Yves Mérian, primeiramente lançada naquele país. Imaginei, por conseguinte, que Vargas Llosa tenha despertado para essa idéia ao saber do propósito de Aluísio Azevedo. Entretanto, abandonei essas suposições ao tomar conhecimento da verdade dos fatos. Aconteceu que Vargas Llosa foi convidado pelo cineasta Ruy Guerra para elaborarem juntos o roteiro de um filme sobre Canudos.

Vargas Llosa não só aceitou o desafio, como veio até o local do conflito (no sertão da Bahia) e passou a ler a vasta literatura a respeito do tema, com destaque para Os sertões, de Euclides da Cunha, a quem dedica o livro.

O sucesso da obra de Maria Vargas Llosa mostra a grandeza de pensamento do autor de O mulato, que sabia descobrir fontes de inspiração para seus romances. Pena que não tenha concluído seu propósito tão bem explorado pelo gênio do escritorperuano. Importa lembrar aqui que, em 1895, após escrever seu último romance, Livro de uma sogra, Aluísio Azevedo, ingressa na carreira diplomática e deixa de escrever por falta de inspiração, pelas agruras e pelas preocupações que o atormentavam. Mesmo em Nápoles, onde suas condições já eram boas, não teve mais ânimo de levar a termo seus projetos literários. Seu estudo sobre o Japão só foi publicado após a sua morte.

Não se pode deixar de considerar que o reconhecimento de Aluísio Azevedo como ficcionista continua sendo respeitável, tanto que até hoje os livros do escritor maranhense são reeditados com freqüência pelos diversos editores do país, inclusive em recentes traduções nos Estados Unidos.

O sonho de Aluísio Azevedo perdeu-se com o correr do tempo pelas vicissitudes desfavoráveis da sua vida como diplomata, enfrentando sérias dificuldades materiais, até seu falecimento aos 55 anos de idade.

Aluísio Azevedo foi vencido sem ter realizado seu plano de romancear a Guerra dos Canudos, cabendo a Vargas Llosa, tanto tempo depois, a oportunidade de torná-lo realidade. Entre o sonho e sua realização, restou a frustração de um e a glória do outro.

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Lourival Serejo

O desembargador Lourival de Jesus Serejo Sousa nasceu na cidade de Viana, Maranhão. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em 1976, especializando-se em Direito Público, pela Faculdade de Direito do Ceará,
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