UMA FILHA POR TRÊS GARRAFAS DE CERVEJA

       Ao lado da violência contra as mulheres e contra os idosos, a violência contra crianças está em igual nível de exacerbação. O mais chocante dessas práticas é que todas são executadas, em sua maioria, dentro de casa, o lugar em que se imagina como refúgio de segurança e tranqüilidade.

     No caso específico das crianças, os autores mais comprovados são os parentes, a começar pelos próprios pais, com abrangência em três modalidades: sexual, física e psicológica.

     Há uma inexplicável contradição, se considerarmos o número de pessoas que se habilitam para adoção de crianças. Enquanto muitos querem dar amor a elas, sem vínculo biológico, outros – os parentes legítimos – abusam da autoridade para maltratarem os membros mais vulneráveis da família.

     A meu ver, são criminosos com elevado grau de perversidade. Abusar da inocência de uma criança, do sorriso de uma criança, da carência de carinho para praticar violência sexual e física é uma demonstração de bestialidade. Nesse rol de malvadezas, a pedofilia vem sendo cada vez mais praticada, contando agora com o auxílio da internet para aliciamento e exibição.

     A psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco, em estudo sobre a parte obscura dos perversos, ao diagnosticar o avanço desse mal e a necessidade de erradicá-lo aponta para uma nova utopia da sociedade democrática globalizada consistente em suprimir esses males, os conflitos, em defesa de “uma gestão tranqüila da vida orgânica."

     O caso que dá título a esta crônica ocorreu na cidade de Pinheiro, nestes dias. Os pais, bêbados, trocaram a filha por três garrafas de cerveja. A criança, uma menina de 11 anos, foi vendida a um aproveitador de 28 anos.

     Segundo narra o jornal, no dia seguinte à troca, a menina conseguiu fugir do pedófilo e buscou refúgio na casa dos pais, mas estes a rejeitaram sob a alegação de que ela já estava falada porque não era mais virgem. O que sobrou da infância dessa menina duas vezes ultrajada pelo pai e pela mãe?

     Fatos como esse têm ocorrido com freqüência, em algumas partes deste país, sendo as filhas dadas como pagamento de dívidas a traficantes. Ainda mais terrível é a fome que não tem moral e estimula a prática de violação ao direito fundamental da criança de exercer sua infância com dignidade.

     Outra face criminosa que sufoca a infância é submetê-la ao trabalho precoce, em detrimento do estudo. Esse fato ocorre principalmente nas zonas rurais, apesar de toda a vigilância dos Fiscais do Trabalho. O universo do trabalho infantil amplia-se em várias modalidades, incluindo até a prostituição.

     Tais casos chocantes são provas de que a sociedade está perdendo os freios da civilização. O lamentável é que nos sentimos impotentes diante desses extremos de violência denunciadores da deteriorização das famílias. O que fazer?

     Para não perdermos a esperança devemos engajar-nos nessa utopia de que fala Roudinesco e pugnar por políticas públicas que se empenhem efetivamente na erradicação dessas ameaças contra o mundo encantado das crianças.

     Por: Lourival Serejo

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Lourival Serejo

O escritor Lourival de Jesus Serejo Sousa nasceu na cidade de Viana, Maranhão. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em 1976, especializando-se em Direito Público, pela Faculdade de Direito do Ceará, em 198
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