TRÊS POETAS MARANHENSES CONTEMPORÂNEOS, DENTRE TANTOS

     A poesia está emergindo, com toda a força, em São Luís e no Maranhão inteiro. A semente que Gonçalves Dias plantou não cessa de brotar frutos em todas as dimensões poéticas. Alguns até chegaram perto de competir com o plantador, como  Maranhão Sobrinho, Ferreira Gullar, José Chagas, Bandeira Tribuzzi e Nauro Machado.

     Com satisfação constato, em cada visita à livraria da AMEI, o quanto a poesia maranhense está viva e antenada com o sentimento de contemporaneidade, ou seja, com o inebriamento em temas presentes, na forma e na técnica correspondentes ao momento poético. Contemporâneo aqui no sentido dessa singular relação com o tempo visto por um olhar distante, de que fala Agamben. O suplemento Sacada Literária, do Jornal Pequeno tem contribuído também para divulgação dessa nova poesia do Maranhão.

     Com a licença de outros grandes poetas vivos, já consagrados no Maranhão e no Brasil, venho falar de três novos poetas, no meio desse mar extenso de versos que inunda nossa atualidade. São os poetas Carvalho Júnior, Rafael Oliveira e Weliton Carvalho.

     Meio envergonhado, confesso que só conheci Carvalho Junior depois da sua morte precoce, tão lamentada no Maranhão e em todo o Brasil.

     Procurei imediatamente ler alguns dos seus poemas e percebi, com facilidade, o quanto ele dominava seu ofício com naturalidade e arte. Constatei como ele sabia elaborar tão bem um poema desta forma: “a melodia do meu pranto/ se confunde com esta chuva tóxica/ que arrasta orfandades e covardes e misérias/ no corpo cinza desbotado de uma borboleta extinta/ em uma colisão com o arco ferino da íris da indiferença.”

     Em cada poema da sua lavra, Carvalho Junior revelava-se um poeta de sensibilidade dócil e dura, ao mesmo tempo, sem rodeios, forjada na vida difícil que teve na infância. Com seus poemas de cortes incisivos, ele suspendia o leitor. Poderia citar inúmeros poemas de sua autoria. Escolho apenas mais este para o leitor comprovar o que afirmo: “uma folha duma árvore qualquer/ dançava na corrente de águas,/ flutuávamos o rio e eu/ um no silêncio do outro,/ até o instante em que mergulhamos/ num voo de segredos dos silvos/ dum pássaro de nome não revelado.”

     Rafael Oliveira é médico e professor. Dedicou-se à poesia com o mesmo afinco com que pratica sua profissão: seriedade e envolvimento.

     Em seu último livro “O avesso abstrato das coisas”, ele conseguiu, com invejável maestria unir a medicina com a poesia, sem dores e sem gemidos, sem recorrer aos velhos tratados para fazer um Diagnóstico poético: “o tempo coloca reticências/ na vida/ou a vida é uma reticência/ no tempo”.

     Seus poemas tratam de coisas sérias com uma sobriedade de palavras que amortecem o impacto da informação médica. Cada poema é um exemplo dessa ténica. Destaco mais este que fala da Amnésia: “a palavra proibia/ a entrada/ ou não pise/ na grama/ queria apenas passear além das placas.”

     Weliton Carvalho é um poeta que faz poemas e sentenças, ou como recomenda o papa Francisco, faz das sentenças um poema em busca da justiça.

     Se ainda é desconhecido para alguém, não é por falta de produções. Em 2008, reuniu seus poemas num só volume de quase 700 páginas, com o título Geometria do lúdico. E continua a escrever. Seu último livro de poemas – Ócios do ofício – foi publicado em 2019, com o selo curitibano do Instituto da Memória. Afora essas reiteradas publicações, tem uma página na internet com publicações de vários gêneros.

     A poesia de Weliton tem a sobriedade profunda que Calvino recomenda. Sua lírica é retraída e “escandalosa”. Para ele, “poesia é a busca do encontro, /um acidente de beleza em construção.” Ele prefere iluminar o ambiente com múltiplas lamparinas para atender a página em branco quando lhe suplica um poema (Ócios do ofício). De vez em quando, explodem pensamentos soltos: “o tempo é Deus brincando de calendário”. E mais tantas coisas poderiam ser ditas desse grande poeta maranhense que atualmente reside em Teresina, mas que mantém suas raízes firmes em Santa Inês e São Luís.

     Essas três vozes da poesia contemporânea do Maranhão são uma amostra da qualidade que atingiu nosso momento poético.

     Por: Lourival Serejo

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Lourival Serejo

O escritor Lourival de Jesus Serejo Sousa nasceu na cidade de Viana, Maranhão. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em 1976, especializando-se em Direito Público, pela Faculdade de Direito do Ceará, em 198
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