O ANEL DE GIGES

     O último livro de Eduardo Giannetti trata de temas polêmicos, que têm origem na Academia de Platão: ética, justiça e injustiça? Para levantar esses debates, o autor usou uma fábula que dá título ao livro: O anel de Giges.

     Em um dos famosos banquetes de Platão, quando buscavam definir o conceito de “homem justo,” Gláucon conta a Sócrates a fábula do Anel de Giges e passa a indagá-lo sobre os desafios éticos dessa narrativa para auxiliar na definição do conceito que procuram.

     Segundo a fábula, Giges era um pastor de rebanhos, na Lídia. Certo dia, presenciou uma tempestade e um terremoto que rompeu parte da área em que estava, abrindo-se uma fenda enorme. Curioso, ele desce pela abertura e depara-se com um cavalo de bronze, oco, repleto de janelas e dentro vê o cadáver de um homem adulto. Fica mais admirado quando percebe, num dedo do morto, um belo anel de ouro. Com o devido cuidado, retira o anel e põe em seu dedo, orgulhoso daquela jóia.            

     Alguns dias depois, comparece a uma reunião com os pastores, portando o referido anel.

     Ao girar o anel em seu dedo, constata que esse gesto o torna invisível. Repetiu várias vezes a manobra e a invisibilidade foi confirmada. Sentindo-se poderoso, conseguiu ser eleito delegado dos pastores para falar com o rei, na Corte de Sades.

     Ali chegando, naquele ambiente que não conhecia, Giges rodou o anel e tornou-se invisível. Depois de despachar com o soberano, foi para a alcova real e seduzia a rainha. Em seguida, de acordo com ela, matou o rei, casou-se com a rainha e tornou-se um rei poderoso.

     Essa fábula encontra-se no segundo capítulo de A república, de Platão.

     A grande instigação ética da fábula contada por Gláucon  é saber o que nós faríamos, individualmente, com o anel de Giges no dedo. Resistiríamos ao seu poder?  Venceríamos todas as nossas tentações íntimas sufocados pela civilização? Ou agiríamos como um homem justo, ético, para alcançar a felicidade? Lembre-se que “felicidade” na perspectiva da ética aristotélica é viver como uma pessoa justa.

     Lembram-se do imperativo categórico de Kant? Então, seria possível um cidadão, de posse do anel, só fazer aquilo que pudesse submeter ao juízo universal?

     Imaginemos um parlamentar, em Brasília, de posse de um anel tão poderoso como esse. Visitaria o gabinete do presidente, no Palácio do Planalto, e ali ouviria seus planos e desabafos; depois iria ao gabinete do presidente da Câmara dos Deputados; passaria pelo gabinete do presidente do STF; visitava alguns gabinetes de ministros e, à noite, ao chegar em casa, estava dono dos mais secretos segredos da República.Tornara-se um homem poderoso.

     O autor do livro sugere que ele quebraria o anel para não ser tentado a cometer um deslize ético. Não faria como Rousseau, que optaria por jogá-lo fora. Se jogar fora, diz Giannetti, poderia acontecer de ser achado por alguém que tenha vocação de tirano.

     De vez em quando, ouvimos ou lemos alguma notícia de que um gari ou uma pessoa pobre encontrou uma razoável quantia de dinheiro, suficiente para resolver seus problemas imediatos, mas preferiu levar à polícia para que fosse devolvido ao dono. Tudo indica que essa pessoa justa talvez teria o mesmo comportamento com o anel de Giges.

     A maior provocação da fábula, segundo o autor do livro aqui referido, é convidar o leitor para autoanalisar-se: será que me conheço mesmo? O que faria se me fosse garantida a impunidade das minhas ações mais obscuras? Como me comportaria sob a proteção da invisibilidade, ao constatar que tudo estaria ao meu dispor (dinheiro, conquistas amorosas, poder, tudo, tudo)?

     Ao fim, convido o leitor para, depois da leitura, pensar o que faria com o anel de Giges em seu dedo. Você será capaz de dizer para todos quais são os seus planos?

 

     Por: Lourival Serejo

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Lourival Serejo

O escritor Lourival de Jesus Serejo Sousa nasceu na cidade de Viana, Maranhão. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em 1976, especializando-se em Direito Público, pela Faculdade de Direito do Ceará, em 198
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