DESISTE DE MIM

     Tenho um amigo em Brasília, com 90 anos de idade, ainda lúcido e trabalhando, mas padecendo de alto grau de surdez. Gosto de conversar com ele, pela maneira estóica, e, às vezes, até abrupta como dialogamos e como ele expõe suas ideias.    

     Apenas para exemplificar aos leitores sobre suas idiossincrasias e seu espírito provocativo, conto esta passagem bem representativa da sua personalidade. Um conhecido de muito tempo passou pelo seu serviço, à sua procura. Quando ele o viu ali, perguntou seriamente: O que estás fazendo aqui? O amigo respondeu: Ia passando e me lembrei de entrar para te ver. Ele olha para a visita e diz: Agora que já me viu, pode ir embora.

     Mesmo sendo meu amigo o protagonista desta crônica, não venho falar dele, mas da velhice e do tempo que nos consome.

     E meu amigo entra nesse tema porque fiquei deprimido ao desligar o telefone na última vez que tentei falar com ele. Depois de dez minutos de tentativa, de grito, de desliga e torna ligar, sem que ele entendesse nada do que eu estava falando, encerrou a ligação me dizendo: Desiste de mim.

     Aquele pedido me apanhou de surpresa. Foi um apelo de quem sucumbe ao peso da idade e se recolhe ao isolamento que suas limitações impõem.

     Ultimamente tenho enfrentado esses dramas com pessoas do meu relacionamento.  Uma amiga muito inteligente está com Alzheimer. Evito visitá-la para não me sentir impotente diante do seu estado, sem poder fazer nada.

     Alguns escritores e artistas famosos optam, com antecedência, por viver em isolamento social. Foram os casos de João Gilberto, que se recolheu em seu apartamento até morrer; e do escritor americano J. D. Salinger, autor do conhecido romance O apanhador no campo de centeio. Atualmente, temos o escritor Dalton Trevisan que vive isolado há décadas.

     Alguns idosos gostam da solidão; outros, preferem o movimento em torno de si. Conheci duas idosas que moravam em locais muito agitados, mas diziam que aquela zoada constante, os movimentos que viam pela janela, é que as mantinham vivas.

     O tempo não desiste de avançar lentamente, levando tudo na frente e deixando o passado para trás. É como um navio pesado que vai ancorar. A marcha diminui, mas ele avança, levando tudo que encontrar na frente, seguramente devagar, até atracar. Então, tudo para.

     Depois dos 60 anos, não se faz outra coisa que tentar enganar o tempo, enquanto ele segue inexorável em sua marcha. O poeta Manoel de Barros aconselhou, em um dos seus poemas, para a gente amarrar o tempo num poste. Não adianta, ele derruba o poste e foge.

     Ao ficar emocionado com o apelo do meu amigo, imaginei quando chegar a minha vez. Antes de eu pedir, muitos desistirão e irão me desconhecendo pelo caminho. Afinal, a jornada que está findando é de cada um. Os outros seguem correndo.

      Nicanor Parra, escritor chileno que morreu com 103 anos, em um dos seus poemas, constata: “Como uma árvore que perde uma a uma suas folhas/ Fui ficando só pouco a pouco.”

     A emoção de ler esse poema é mais sentida na técnica original do poeta. No último verso, as palavras vão caindo, separadas, como se ele tivesse descendo uma escada. Não é mesmo uma escada?

Por: Lourial Serejo

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Lourival Serejo

O escritor Lourival de Jesus Serejo Sousa nasceu na cidade de Viana, Maranhão. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em 1976, especializando-se em Direito Público, pela Faculdade de Direito do Ceará, em 198
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