A FORÇA DO OLHAR NA PANDEMIA

     Essa pandemia alterou tudo que se possa imaginar no planeta Terra, tema que já foi explorado sob todos os ângulos pelos cronistas, articulistas, romancistas e pela imprensa em geral.

     Dentre todas as alterações, venho ressaltar uma até agora esquecida: a força do olhar.

     As máscaras escondem os sorrisos, abafam a fala, obstruem os narizes e, se o usuário usa óculos, fica quase irreconhecível. De um rosto amigo ou desconhecido só se destaca o olhar. E não é pouco. Nem a fala nem o olfato nem os gestos têm o magnetismo que se desprende de um olhar. Vejam os tímidos, eles não têm coragem de fixar o olhar no outro; os falsos e mentirosos, também.

     Nessa capacidade de leitura dos olhares, a mulher é mestra. Ela sente quando o marido ou um filho estão escondendo alguma coisa.

     Com a pandemia, quer se queira quer não, tem que fixar o olhar no seu interlocutor ou nas pessoas que vêm ao seu encontro. Se o olhar reflete a alma, como se diz, por um instante você se apodera da intimidade alheia. Daí pode nascer uma sintonia imediata, um repúdio ou até medo.

     Algumas pessoas têm olhos bonitos que não são percebidos pela feiúra do rosto. A máscara afasta esse detalhe negativo e torna exponencial a plenitude do olhar.

     Há pessoas que possuem um magnetismo no olhar, refletindo dominação, atração, insinuação ou desejo. Aquele que está sendo objeto desses olhares pode fazer uma leitura equivocada e supor que aquele foco é exclusivo para si. Aí as coisas podem atingir uma proporção inesperada.

     Quando passei por determinada comarca, como juiz, havia um colega que tinha os olhos que mudavam de volume conforme seu ímpeto. A notícia se espalhou na cadeia. Quando algum réu era chamado para ser interrogado, aquele que já havia passado pela experiência recomendava ao companheiro: Não olha pra ele.  

     Em seu calhamaço “O ser e o nada” Sartre lembra que o olhar é a convergência de dois globos oculares em minha direção e, se o outro é, por princípio aquele que me olha, devemos poder explicitar o sentido do olhar do outro. Então, para plagiar Pascal pode-se dizer que há mais metafísica entre os olhares que se cruzam do que supõe a vã filosofia.

     O filme argentino O segredo dos seus olhos, com Ricardo Darin, traz história significativa sobre o poder do olhar.

     Entendo que essa oportunidade que a Covid-19 nos deu desse confronto com o olhar do outro é um ponto positivo do exercício da alteridade, ainda que mantendo o distanciamento.

     Aposto que todos que estão lendo esta crônica passarão a prestar atenção a esse legado que a Covid-19 nos trouxe, no meio de tantos males. Sabedoria é procurar os pontos positivos que despertaram esse momento crucial em que vivemos, como, por exemplo, perceber com atenção o olhar do outro.

     Com esperança, sem perder a fé.

     Por: Lourival Serejo

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Lourival Serejo

O desembargador Lourival de Jesus Serejo Sousa nasceu na cidade de Viana, Maranhão. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em 1976, especializando-se em Direito Público, pela Faculdade de Direito do Ceará, e
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