Setembro amarelo

Escolheram o amarelo dos ipês floridos e a minha cor preferida para servir de símbolo da campanha de alerta contra o suicídio. O amarelo é a cor que ilumina e estimula o desejo de viver.

Já disse, em crônica sobre o Natal, que todo aquele que se atira a falar sobre essa data maior da fé cristã, sendo brasileiro, vê-se compelido a citar o famoso soneto de Machado de Assis. Em se tratando de suicídio, há outra tentação difícil de vencer. Submisso a ela, inicio esta análise superficial, invocando o que disse Albert Camus na entrada do seu livro O mito de Sísifo: "Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio".

O suicídio está presente em várias obras literárias, sem esquecer que vários escritores puseram fim a suas vidas de forma trágica. As suicidas mais famosas, que deram nome às respectivas obras foram Madame Bovary e  Anna Kariênina.

Os números mostram a realidade assustadora dessa prática: uma pessoa se suicida, no mundo, a cada 40 segundos;  no Brasil, segundo anunciou o Ministério da Saúde, entre 2011 e 2015, o índice de suicídios aumentou 12%, já passando de onze mil por ano; no Maranhão, em 2016, foram registrados 290 ocorrências.

Tenho lido, neste jornal,  os artigos do meu ilustre vizinho, doutor Rui Palhano, sobre as causas do suicídio, com mais ênfase na sua visão de psicanalista.

As causas apontadas, por unanimidade, dentre os estudiosos são:  depressão, transtornos de ansiedade, drogas, alcoolismo,  esquizofrenia, trauma e questões econômicas. No momento, contam-se, ainda, os apelos por via da internet (como o jogo da Baleia Azul) e o fanatismo religioso e ideológico. A série 13 Reasons why (13 razões) foi acusada, também, como estimulante para os jovens seguirem o exemplo de uma personagem, vítima de bullying em sua escola, a qual recorreu ao suicídio. O bullying escolar tem provocado vários suicídios entre estudantes.

A faixa etária que mais recorre a essa prática extrema é a de jovens entre 15 a 29 anos. Talvez pela vulnerabilidade e pelas  incertezas da vida.

Os jovens passam o tempo que lhes sobra, após as aulas (quando frequentam algum colégio) na internet, nos jogos eletrônicos  cada vez com mais emoções, até que, enfastiados, não sabem que rumo tomar na vida. Encontram-se sem perspectiva e afundam num vazio. A família desorganizada  também não tem rumo. E o que fazer?

Há uma geração, cada vez maior, de jovens que não estudam e não trabalham. Esses jovens abúlicos não têm ideal e geralmente vivem numa estrutura familiar esfacelada. Tornam-se, portanto, mais vulneráveis às tentações, inclusive a da morte como uma opção  para seu desamparo existencial. Outro ponto a considerar é a falta de sentido na vida dessa juventude.

João Mohana explorou muito bem em seus livros esse tema, tanto dirigindo-se aos pais quanto aos filhos. Esse notável médico e sacerdote buscou os ensinamentos do pensador Viktor Frankl que, em sua obra Um sentido para a vida, ensina-nos a superar os estados depressivos com a definição de objetivos para a nossa trajetória de vida.

No caso dos idosos ou pessoas com mais de quarenta  e menos de sessenta anos, é mais raro adiantar-se à morte natural, talvez porque   têm mais amor à vida e já passaram pela fase mais crítica. Ocorre que dados estatísticos recentes registram o aumento de suicídio entre os idosos maiores de 70 anos. É possível que a solidão e o abandono da família estejam contribuindo para essa antecipação do fim da vida nessa faixa etária.

A meu ver, o mais surpreendente no suicídio é aquele praticado sem motivo aparente, assim como o crime sem motivo. É a história de um homem com uma vida estável e que parece feliz para todos os amigos. De repente, esse homem comete suicídio sem deixar qualquer carta e sem motivo imediato ou mediato que justifique o ato praticado. Então, como explicar esse mistério? É aqui que entra o problema filosófico de alta indagação levantado por Albert Camus.

Dois fatores merecem ainda ser anotados: o papel da imprensa e o da polícia diante da notícia de um suicídio. A polícia não pode negligenciar na abertura do inquérito policial, deixando de cumprir seu dever e contribuir com a pesquisa e a prevenção. O papel da imprensa foi muito bem debatido na obra Morreu na contramão, o suicídio como notícia, da autoria de Arthur Depieve (Zahar, 2007).  

Comungo com os especialistas que constatam  a necessidade de políticas públicas inteligentes para enfrentar esse problema, principalmente quanto aos jovens. Afinal, cada tragédia desse tipo afeta a família e a sociedade, ambas instituições de responsabilidade do Estado. 

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Lourival Serejo

O desembargador Lourival de Jesus Serejo Sousa nasceu na cidade de Viana, Maranhão. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em 1976, especializando-se em Direito Público, pela Faculdade de Direito do Ceará,
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