O triste fim dos filatelistas e das bibliotecas privadas

Ele passou a vida inteira colecionando selos, gastando dinheiro com a compra de cartelas inteiras de selos novos. Sua coleção de selos nacionais e estrangeiros  era perfeita, sob todas as exigências técnicas. Os álbuns foram-se multiplicando até chegar a dezenas. Ali estava um investimento de dinheiro,de tempo e de prazer.

Vieram a velhice e as doenças. E agora, o que fazer com sua preciosa coleção? Filhos e netos não querem saber de selos. O que será da minha coleção? angustia-se o filatelista nonagenário. Angústia e melancolia tomam conta dele. Lembra-se, então, de alguém que é um filatelista cuidadoso, mais jovem, em quem pode confiar. Chama-lhe e oferece a ele sua coleção. Tome-a, diz ele, assim ficarei descansado de que meus selos estarão em boas mãos.

O amigo fica perplexo com a oferta, pois sabia do zelo daquele colecionador. Mas aceita, sem saber o que dizer.

Em casa, fica abatido com aquela situação, ao constatar que, no futuro próximo, também não saberá o que fazer com a sua coleção. Então, comprovou  que essa atividade é uma prática em extinção. São tantas ofertas no mundo moderno, que ninguém vai querer mais concentrar-se numa coleção de selos. Afinal, até as cartas já são raridades. Há quanto tempo você não manda e não recebe uma carta? Aliás (para os menores de quarenta anos), você já mandou ou recebeu alguma carta?

O mais melancólico é que essa mesma situação já está acontecendo com os livros. Quem tem sua biblioteca em casa, fique logo sabendo que seus livros possivelmente acabarão nos sebos (quase sempre as viúvas detestam os livros), uma vez que não encontrará quem os compre ou quem os queira de graça.

Dedicar-se a formar uma biblioteca particular é uma atividade duradoura, com a paciência de garimpeiro. Cada exemplar adquirido tem uma história, uma motivação, daí o apego do seu dono em manter aquele acervo junto de si e preocupar-se com seu fim.

Em São Paulo, é comum doarem-se grandes bibliotecas particulares para a USP. Assim aconteceu com a biblioteca de Delfim Neto e a do falecido José Midlin, que foi o mais respeitado bibliófilo brasileiro, chegando a investir grande parte de sua fortuna na aquisição de obras raras.

Acompanhei o drama de Jomar Moraes, muito tempo antes de sua morte, diante dos seus mais de vinte mil livros. Ainda bem que morreu sem essa preocupação, pois decidiu, com antecipação, fazer doação da sua biblioteca para a  UFMA.

No mundo dos novos valores que impulsionam os jovens, não há mais lugar para selos, livros e outras preferências dos pais e avós. Você já viu alguma propaganda de apartamento, por maior que seja, referir-se a ambiente para instalar uma biblioteca? A prática que já se tornou rotina é, antes de mudarem-se para os apartamentos, descartarem os livros. Fico imaginando com crescerão esses filhos de apartamentos sem livros à sua volta, muito diferente do que recordava Sartre: "Comecei minha vida como hei de acabá-la, sem dúvida: no meio de livros. No gabinete do meu avô, havia-os por toda parte".

O destino de muitos escritores foi definido pela existência de uma biblioteca em suas casas. Quando a criança ou o adolescente descobrem que ali está a oportunidade de viver grandes aventuras e adquirir muitos conhecimentos, conquistam uma nova opção de lazer. Sem leitura, as mentes permanecem obtusas.

Com as novidades eletrônicas, os novos equipamentos (tablet, kindle) estão tentando empurrar os livros para o lixo. Ainda bem que o mercado de livros tem resistido a essas investidas, mas não se sabe até quando. Por enquanto, a vendagem e os lucros ainda são animadores. Alguns colégios já estão adotando o tablet em vez dos livros. Fiquei tão estarrecido em saber dessa novidade, que deixo até de comentá-la para não parecer jurássico.

O desalento que se abateu sobre o colecionador que se desfez dos seus selos, mais cedo ou mais tarde poderá chegar até nós, os possuidores de bibliotecas particulares, até sermos nós mesmos a peça descartável. Mas isso é outra história.

Publicado no Jornal Estado do Maranhão, em 11.3.2017

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Lourival Serejo

O desembargador Lourival de Jesus Serejo Sousa nasceu na cidade de Viana, Maranhão. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em 1976, especializando-se em Direito Público, pela Faculdade de Direito do Ceará,
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