Quando os soldados morrem

No fim de outubro próximo passado, na cidade de Barra do Corda, um soldado jovem foi assassinado. Os jornais que noticiaram o crime mostraram a foto de um rapaz de rosto firme com brilho de vida nos olhos. Nada  fora do comum, nestes dias de violência, traz essa notícia. Afinal, de vez em quando, estão matando soldados.

O relato desse assassinato despertou minha atenção ao tomar conhecimento de que a vítima era egressa do último concurso realizado para o ingresso na carreira da  Polícia Militar do Maranhão. Igual ao soldado Dantas, de 25 anos de idade, outros seis soldados   do mesmo concurso já foram assassinados. Vejam bem: sete jovens soldados foram assassinados em um pouco espaço de tempo. Nesse número, não estão os outros mais antigos, também assassinados.

Esse último concurso realizado para soldados combatentes da nossa Polícia Militar desencadeou, aproximadamente, quinhentos mandados de segurança. Até hoje, ainda há  ações dessa natureza para serem julgadas. No Tribunal de Justiça, os gabinetes de desembargadores transformaram-se em locais de súplicas e, até mesmo, de desespero de vários impetrantes. Alguns chegavam a chorar. Todos jovens sonhadores, angustiados, dizendo que seu sonho de vida era ser soldado; que haviam estudado muito, com a ânsia de serem aprovados; que precisavam daquele emprego a todo custo; e muitos outros argumentos. Passaram meses e meses estudando. Depois de aprovados num concurso difícil e muito concorrido, submeteram-se a um longo período de treinamento, para depois serem atirados nos desafios da profissão.

É por essas imagens que fico penalizado com a notícia aqui referida. Não sei se esses soldados assassinados estavam entre aqueles que foram aos nossos gabinetes. Eram todos  jovens que  passaram a vida sonhando com um ideal, sem saber que a sua conquista abreviaria suas vidas.

Com a aprovação no concurso, esses policiais sentiram-se realizados por terem alcançado o objetivo dos seus esforços nos últimos anos. Ocorre que os sonhos deles não se estancariam com a nomeação. Tinham apenas atravessado uma passagem estreita que os levaria a uma sequência de operações no dia a dia de cada um, sempre em defesa da sociedade e da Instituição que optaram por pertencer. Com a morte, todo esse processo foi bruscamente interrompido.

Como auditor militar, muitas vezes interroguei soldados jovens, com poucos anos na Corporação. Haviam participado do primeiro entrechoque com troca de tiros e ainda não haviam se recuperado: estavam amedrontados.

No estado de violência em que vivemos, nos últimos anos, os policiais vivem a tensão do cotidiano com a incerteza do anoitecer. O Estado e a sociedade deveriam dispensar mais atenção aos nossos policiais militares, dando-lhes o reconhecimento e a proteção que merecem. Se alguns transgridem seus deveres, devem ser recuperados pelos respectivos comandos, para que retornem para o lado sadio da ética e do catecismo da Instituição.

O estoicismo dos soldados romanos já os preparava para a morte como um estágio natural da vida. Em muitas civilizações essa ideia continua sendo transmitida a quem faz essa opção de trabalho. Mas, fora do estado de guerra, não se justifica mais aceitar esse desfecho como uma fatalidade inevitável. A quebra das tábuas de valores da sociedade tem desencadeado esses atos de violência sem limites a que estamos assistindo no dia a dia.

Os sete  soldados jovens,  mortos de forma violenta,  ficarão na galeria do anonimato, pelo breve tempo que vestiram a farda que tanta almejaram. Serão eternizados apenas nas memórias das namoradas, dos amigos e dos familiares que aplaudiram e ficaram orgulhosos com suas aprovações.

Nesta oportunidade, é confortável dizer aos seus familiares que seus atos – ainda que breves –, no exercício de suas funções, com certeza tornaram melhor a vida de uma comunidade. Em cada dia de trabalho, contribuíram para transformar o ambiente em que atuavam em um espaço melhor e mais seguro.

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Lourival Serejo

O desembargador Lourival de Jesus Serejo Sousa nasceu na cidade de Viana, Maranhão. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em 1976, especializando-se em Direito Público, pela Faculdade de Direito do Ceará,
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