O DESTINO DAS BIBLIOTECAS

Antes a população tinha ao seu alcance somente as bibliotecas públicas da cidade, quando havia. A frequência era satisfatória. Com a ficha em mãos, podíamos fazer empréstimos sucessivos.

Ao tomar conhecimento do valor de uma biblioteca na formação dos jovens, os governos expandiram as bibliotecas para os bairros. Os colégios trataram de organizar as suas, pondo à disposição dos alunos os clássicos da literatura e novos lançamentos. Na Colômbia, o governo usou as bibliotecas como armas para enfrentar os traficantes: abriu grandes bibliotecas nos bairros mais violentos de Bogotá.

A Unesco designou Medellín, na Colômbia, como a Capital Mundial do Livro para 2027. A cidade registrou um aumento de 542% no número de livrarias nas últimas sete décadas, liderando o índice nacional de leitura do país. A nomeação segue a recomendação do Comitê Consultivo da Capital Mundial do Livro, composto por livreiros, editores e autores.

Como a segunda maior cidade da Colômbia, Medellín abriga mais de 110 livrarias e 25 bibliotecas, muitas das quais foram transformadas a partir de antigas prisões e instalações policiais. Outrora afetada por longos períodos de conflito, a cidade é hoje internacionalmente conhecida pela inovação urbana e cultural, na qual livros e bibliotecas servem como santuários essenciais e espaços de resistência. Hoje, segundo a Unesco, Medellín personifica o poder da cultura na paz e na reconciliação.

No momento, as bibliotecas estão perdendo na competição com a avalanche trazida pela revolução tecnológica: o WhatsApp, o Tik Tok, o Instagram, o X, os jogos eletrônicos, os aplicativos e a IA. Tudo envolto numa atmosfera ilusionista que conquistou idosos, jovens e crianças. Um novo mundo instalado nas nuvens, descartando tudo que fica fora do seu alcance.

Uma das vítimas mais sensíveis dessa metamorfose foram as bibliotecas. Esvaziaram-se. Os livros estão sendo descartados. Nas mudanças de casas para apartamentos, a primeira providência é desfazer-se dos livros por falta de espaço. Com mais amplidão, ao longo da história, as bibliotecas sempre foram vítimas dos regimes ditatoriais, a exemplo do nazismo.

A magia das telas capturou os jovens sofregamente. Os pais, por comodismo, entregam um celular para uma criança de dois anos que, ali, fica quieta horas e horas. A imaginação começa a se embotar.

Na área jurídica, há bibliotecas disponíveis em várias instituições, abertas para qualquer estudante de direito. Mas eles preferem consultar o google e o youtube. O resultado é que a qualidade dos profissionais caiu sensivelmente. E mais grave: já tem órgãos federais se desfazendo de suas bibliotecas para adotarem somente as disponíveis de forma on line.

Em conversa com o presidente Sarney, ele contou que, ao sair do Tribunal de Justiça, onde começou a trabalhar, dirigia-se à biblioteca pública que, naquela época, funcionava na Rua da Paz. Ali ficava até à noite, lendo os bons livros disponíveis. Não seria exagero dizer que o destino do futuro presidente da república começou naquele espaço de cultura.

Há locais que exigem, para sua respeitabilidade, o funcionamento de uma biblioteca, como as universidades, os colégios, os seminários católicos etc. Especificamente, em se tratando de seminários, não se pode conceber a formação de um padre para viver seu sacerdócio atualmente sem dispor de uma biblioteca, com títulos referentes aos desafios atuais da sociedade.

A propósito de seminário, ouvi do padre Cordeiro, já falecido, pároco da diocese de Viana, esta história: ao se aproximar do Seminário Santo Antônio, encontrou uma carroça abarrotada de livros para serem jogados fora. Surpreso e revoltado, esbravejou e fez o carroceiro voltar para o seminário e, ali, desacatou o reitor, que não era brasileiro, sobre o crime que estava praticando.

Esse é o quadro atual das bibliotecas. Se não reacendermos a cultura das bibliotecas como fontes de pesquisa e conhecimento, elas se tornarão apenas uma lembrança do passado.



Lourival Serejo

     Lourival de Jesus Serejo Sousa nasceu na cidade de Viana, Maranhão. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em
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