O MÉDICO É O MONSTRO

     E surpreendentemente, o conto de Stevenson, O médico e o monstro, atualiza-se em nova modalidade. Enquanto na peça literária, um médico duplica sua personalidade por uso de uma fórmula mirabolante, transformando-se num monstro que acaba dominando seu criador, temos nos deparado com médicos que se revelam, de forma espontânea, autênticos monstros em sua relação com as pacientes.

     Tornaram-se comuns os noticiários denunciarem casos chocantes sobre médicos que abusam de suas pacientes, até mesmo em UTIs, principalmente anestesistas e ginecologistas. O caso do médico Roger Abdelmassih, condenado pela série de crimes cometidos é o mais agressivo de todos.  São inúmeros casos que ocuparam e ainda ocupam as manchetes dos jornais televisivos e que deixa as pessoas desconfiadas se ainda podem depositar em seu médico a devida confiança. Como sabemos, nesse relacionamento médico e paciente o fator confiança é indispensável para o êxito do tratamento.

     Entretanto, é bom lembrar que, no meio desse cenário, os médicos-monstros representam uma reduzida, muito reduzida, parcela da totalidade dessa honrosa profissão. A maioria dos médicos dedicam-se com ética e denodo ao exercício da medicina, salvando vidas, aliviando as dores e os sofrimentos dos pacientes, cuidando do seu bem-estar com responsabilidade.

     As vítimas corajosas que têm denunciado esses médicos-monstros estão rompendo com um ciclo de silêncio e impunidade. É necessário denunciar para que sejam tomadas as providências contra essa nova modalidade de violência contra a mulher.

     Como nasci e cresci dentro de uma farmácia, no interior do estado, tínhamos permanentes relacionamentos com os médicos que chegavam ali para trabalharem. Em pouco tempo, tornavam-se amigos. Tão amigos que eram levados até para serem padrinhos dos filhos. Eu e minha irmã caçula tivemos padrinhos médicos. Um deles foi o saudoso doutor Hadade. De outro, herdei o meu nome. Toda a cidade sabia o nome do médico e o saudava com respeito.

     Esses desvios éticos devem ser prevenidos na faculdade, elevando o que se chama hoje de a ética do cuidado, defendida por Leonardo Boff e Levinas, como paradigma de atuação. O juramento de Hipócrates é uma tábua de mandamentos éticos que devem orientar a vida cotidiana de um médico.

     Cada paciente defronte de um médico tem a postura emocional de um vulnerável. Logo, merece todo o cuidado quanto ao atendimento que recebe. Ao estuprar uma paciente o médico comete dois crimes: o primeiro – estupro – é talvez o mais hediondo do código penal; o segundo é desonrar a dignidade da profissão que erradamente escolheu. Nesse momento, o monstro domina o ser humano.

     Os Conselhos de Medicina devem punir com o máximo rigor esse profissional que fere o prestígio de uma profissão honrosa com uma conduta criminosa que lhe retira o direito de continuar sob abrigo no seio dessa classe tão útil para a sociedade.

     À medida que exigimos justiça e punição para esses médicos-monstros, é importante que defendamos a integridade e a ética na medicina, prestigiando e aplaudindo os médicos que se dedicam à sua profissão com a presteza de um apóstolo.

     Por: Lourival Serejo



Lourival Serejo

     Lourival de Jesus Serejo Sousa nasceu na cidade de Viana, Maranhão. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em
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