O TEMPO NA POESIA DE LOURIVAL SEREJO

     Publicado pela 7Letras em 2022, o livro de poemas E o tempo larga o relógio a galope por seus prados, de Lourival Serejo, tem o tempo, como já indicado no próprio título da obra, como inquietação maior do poeta. Inquietação que é de imediato transferida para o leitor. Parece até que Lourival Serejo, que é um leitor arrebatado, que sabe saborear e comentar as obras que lhe caem às mãos (basta ver o seu livro de resenhas Literatura no espelho), bebeu em Machado de Assis aquela máxima lúgubre: “Matamos o tempo, o tempo nos enterra”. O tempo, para Lourival Serejo, é desaparecimento, descaminho, como no comovente poema “As mãos”: “foram-se todas as mãos”, por isso o poeta já não tem “a quem pedir bênção”. As mãos do pai e as da mãe: Aquelas mãos/ finas e/ frágeis/ postas sobre a minha cabeça/ tinham uma força sobrenatural”. O tempo para o poeta é também declínio, derrocada, como no narrativo “O espelho”, em que dois amigos, após anos, se reencontram num restaurante: “um deles olha para o outro/ e constata: como está acabado”, enquanto o outro, também abismado, avalia ou, antes, admite: “ainda irei ao seu enterro”. Em “Galope”, mesmo que “amarrado no poste” (intertexto com o poema de Manoel de Barros), o tempo “arrebenta a corda”. Ainda em “Galope” mesclam-se no mesmo impasse, incorrem no mesmo vazio, tempo existencial e tempo histórico (“passou a Primavera de Praga/ passou o Vietnã/ passou Gorbachev”). É essa também a tônica de “Paralelo 17”, em que ressoam as “botas de 68”, um tempo de “pressão/ repressão/ danação” e em que “jovens soldados/ virgens morriam a granel”. O poeta, desassossegado, está “sempre em luta/ contra o tempo” – luta, no plano pessoal, contra a inexorabilidade e, no plano histórico, contra os destroços/escombros do tempo. Essa luta o faz desejar “os ponteiros voltarem/ voltarem/ voltarem” até que satisfaçam a sua “ilusão”. Ilusão (de deter/domar o tempo) que também o faz, como a personagem de Faulkner, quebrar o seu “relógio de estimação”.

     Há também no livro uma série de poemas metalinguísticos. Entre eles destaco “Luta de lavrador”, “A pedreira”, “A rima” e o ótimo “No inferno”, no qual é louvada, mais que o tema, a forma como Dante narra os círculos do inferno na Divina comédia. A metalinguagem de Serejo remete à engenharia cabralina.

     O livro traz ainda alguns poemas com temática variada: impotência diante da pobreza do país (“Fraternità”); o desejo de reposicionamento do ser (“Metamorfose”); a identidade latino-americana, que faz Havana se assemelhar a São Luís (“Havana”); o tema do desterro (“Tormentos”); preconceito (“A história de P.”). Lourival Serejo, seguramente, está entre os bons poetas da cena literária nacional.

Rinaldo de Fernandes

À venda pela Editora 7Letras

 



Lourival Serejo

     Lourival de Jesus Serejo Sousa nasceu na cidade de Viana, Maranhão. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em
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