No país da fraternidade

     A trilogia da Revolução Francesa, como todos sabemos, tinha o seguinte lema: liberdade, igualdade, fraternidade. Salvo engano, foi a primeira vez que se usou a fraternidade com um viés político. A partir de então, espalhou-se pelo mundo, inspirando encíclicas, tratados e constituições.

     Justamente lá, na França, o país que clamou pela fraternidade de maneira revolucionária, aconteceu agora, no mês de fevereiro, um fato que estarreceu o mundo.

     René Robert, um conhecido fotógrafo suíço, ganhador de prêmios, caiu numa rua de Paris e ali ficou, por nove horas, até morrer de frio.

     As pessoas passavam e passavam, caros e carros, e ninguém se importou com aquele homem caído, passando mal. Até que um morador de rua chamou os bombeiros, mas já era tarde. René morreu de hipotermia.

     Hoje, aquela fraternidade de 1789 é enaltecida pelos filósofos como o ponto mais alto da alteridade, do respeito e do reconhecimento da face do outro. As religiões exaltam-na como símbolo do amor ao próximo.

     Nada disso foi suficiente para sensibilizar qualquer transeunte francês a se aproximar daquele homem para socorrê-lo. A pressa, a indiferença, o medo, a reiteração das cenas violentas do cotidiano, tudo anestesia o sentimento do cidadão, impelindo-o a cuidar apenas de si.

     Aqui, no Brasil, outro caso mais grave levantou a indignação do mundo: o linchamento do jovem imigrante congolês Moïse Kabagambe com socos, chutes, pauladas e enforcamento.

     No animus desse assassinato concentram-se as agravantes da futilidade, da crueldade e da torpeza, além da demonstração clara de racismo e xenofobia.

     Imaginem um jovem que sai do seu país, com medo da violência e da incerteza e da guerra, para buscar sua utopia. E já instalado, lutando para conquistá-la, a mesma violência que deixou lá na África ceifa-lhe a vida, aqui no Brasil, num ritual ignominioso, em plena via pública.

     Esses dois acontecimentos clamam por uma revisão crítica dos valores sociais e a propagação da fraternidade como princípio de convivência cristã. À juventude cabe um fundamental papel nessa cruzada.

     Por: Lourival Serejo

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Lourival Serejo

O escritor Lourival de Jesus Serejo Sousa nasceu na cidade de Viana, Maranhão. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em 1976, especializando-se em Direito Público, pela Faculdade de Direito do Ceará, em 198
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