PARA ONDE VAI A AMÉRICA LATINA?

     Esse é um tema que muito me interessou, desde quando li Subdesenvolvimento e estagnação na América Latina, de Celso Furtado. E, tempo depois, As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano.

     Richard Nixon, em visita à Venezuela, quando era presidente dos Estados Unidos, disse que para o lado que o Brasil fosse iria o resto da América Latina. Foi uma profecia que não se concretizou. Os contrastes das políticas internas e externas dos países não confirmaram a previsão do presidente americano.

     Sob a análise dos opostos, temos hoje, na América Latina, governos da direita (Equador, Colômbia e Uruguai) e governos da esquerda (Argentina, México, Honduras, Bolívia, Peru e o Chile, agora, com a eleição de Gabriel Boric). Na ultra-esquerda estão as ditaduras da Venezuela e da Nicarágua, com Nicolás Maduro e Daniel Ortega, respectivamente. Em maio, haverá eleição presidencial na Colômbia, tendo o candidato da centro-esquerda vantagem sobre o da direita.

     A recente vitória de Gabriel Boric, no Chile, um jovem de 35 anos de idade, levantou os ânimos da juventude latino-americana. As disputas das eleições chilenas deixaram um alerta preocupante: o percentual de eleitores que votaram no candidato populista da direita que se declarou defensor da ditadura de Pinochet, com uma agenda altamente conservadora. Ora, o governo de Pinochet que derrubou Allende inaugurou, nos idos da década de 70, uma das mais cruéis ditaduras do continente.

     Os governos latino-americanos viveram sempre em sobressaltos, com altos e baixos no termômetro da democracia. Agora, com algumas ameaças à direita extremista, as preocupações aumentaram.

     Quando Evo Morales assumiu a presidência da Bolívia, em 2006, grande parte da América Latina regozijou-se porque, pela primeira vez, estava assumindo o poder um opositor da elite política econômica e política.

     Num país em que a maioria da população é de origem indígena, a eleição de um integrante dessa maioria representou uma vitória social e democrática.

     Ocorreu que, ao término do seu mandato, Evo Morales foi picado pela mosca azul do populismo e do gosto pelo poder. Desejou, então, novo mandato. E conseguiu em 2009. Ao fim do segundo mandato, nova picada, alterou a Constituição, quis o terceiro; e conseguiu. Terminando o terceiro mandato, já estava totalmente possuído pelo demônio do poder. E não admitia a aproximação de nenhum exorcista. Então, quis continuar presidente pela quarta vez, a exemplo de Hugo Chaves que foi até ao sétimo mandato.  Depois de uma vitória duvidosa, rompeu-se o dique da população desafiada e Evo Morales foi obrigado a renunciar e fugir do país.

     Passado o período turbulento, a Bolívia voltou a respirar os ares de uma democracia estável, com a posse de Luís Arce, economista e professor universitário.

     Faço esse destaque à Bolívia em homenagem a Simon Bolívar, o grande idealista que quis unificar a América Latina.

     Outras duas grandes ameaças pairam sobre a América Latina: a corrupção e o narcotráfico. O México já está dominando pelas organizações criminosas que traficam as drogas; a Colômbia está no mesmo rumo. No Brasil, a falta de uma governança de fronteira eficiente tem permitido a invasão das drogas com facilidade. O poderio econômico que essas organizações têm sustentam a corrupção. Então, os dois males se acasalam.

     A corrupção tornou-se altamente nociva para o crescimento da América Latina pelo estágio em que chegou: hoje ela é sistêmica e estrutural. Em alguns países, contam com o silêncio do Estado.

     É importante visualizar esse quadro político e ideológico da América Latina no ano em que as eleições presidenciais devem definir a posição do Brasil, daí a importância da conscientização do eleitor. Infelizmente, ao que tudo indica, as opções que o leitor e o eleitor terão vão estar nos extremos, o que não é bom para a harmonia interna do país.

     A América Latina não admite mais o retorno ao passado em que uma corrente ditatorial envolveu vários países, sufocando os direitos fundamentais e as liberdades individuais.

     Por: Lourival Serejo



Lourival Serejo

     Lourival de Jesus Serejo Sousa nasceu na cidade de Viana, Maranhão. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em
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