Entre Habana Vieja And Manhattan

Sempre achei um exagero ao ouvir certa pessoa gabar-se de  já ter ido a Nova York dezenas de vezes. Nenhuma cidade estrangeira poderia ter tantas atrações para renovar a ânsia de revisitá-la por  tantas vezes, pensava eu. Mas, ao conhecê-la pela primeira vez – e, até agora, única –, achei que o exagero do meu conhecido era admissível. Realmente, Nova York tem um quê capaz de viciar um turista.

As luzes da Times Square, no coração de Manhattan,  a movimentação de pessoas de todas as nacionalidades, a confusão de línguas, de estilos, de ofertas, de recreios, os espetáculos da Brodway, tudo absorve os visitantes, deixando muitos deles deslumbrados.

Afora essas atrações disponíveis, se algum turista, em Nova York, quiser saber alguma coisa de História ou Ciências, recorrerá aos museus especializados. Com dólar nas mãos, todas as portas se abrirão, submetendo-se a um controle de segurança que, às vezes, descamba para o exagero, justificável, segundo eles, após a humilhação do 11 de Setembro.

Depois dessa experiência, minha mente aspirava conhecer uma outra realidade, esta com razões e curiosidades acumuladas desde a década de sessenta. Precisava ir a Cuba, percorrer as ruas de Havana para encontrar-me com os contornos da minha utopia de jovem idealista. E fui. E gostei.

Na viagem, conversei com uma  médica do projeto Mais Médicos, a qual  ia visitar a mãe. Falei-lhe da minha ansiedade em conhecer Cuba. Ela fez um sorriso reticente, e logo me passou as informações que solicitei.

No centro de Havana Velha, não encontrei as luzes da Times Square, mas a evocação dos séculos passados, cheios de heroísmo e história que se desprendem das velhas paredes dos prédios,  das igrejas e das pedras do calçamento. O povo, principalmente os jovens, exala alegria e anda sob o balanço da salsa.

Pelas igrejas que  visitei, todas de arquitetura e beleza interna admiráveis, experimentei duas surpresas: em uma, havia dois padres maranhenses; na Catedral, lotada de católicos, realizavam-se as cerimônias de Sexta-Feira Santa.

O enlevo de encontrar-me naquele lugar era acrescido da emoção de deparar-me com a realidade descrita nos livros dos escritores cubanos Pedro Juan Gutierrez, Senel Paz, Leonardo Padura, Alejo Carpentier e Cabrera Infante. Mas o destaque maior dessa romaria literária foi localizar, em Santiago de Las Vegas,  o lugar onde nasceu Ítalo Calvino, um dos meus mestres da escrita. É isso mesmo. O autor de Cidades invisíveis, embora consagrado com um ícone da literatura italiana, é cubano de nascimento.

Nunca gostei de ler relatos de viagem. Por isso estou evitando transformar estas impressões em mais um relato de viagem.

Todas as pessoas próximas a mim perguntam-me se eu vi pobreza em Havana. Espantam-se quando digo que não. Embora tenha conhecimento de que ali existem áreas de pobreza, como existem no Rio de Janeiro. Com a diferença de que a pobreza de Cuba é decorrente de uma situação econômica provocada por fatores externos, de todos conhecidos. Mas, apesar dos seus efeitos, é sustentada pela força de vontade  da população que compartilha do ideal socialista. Talvez com o propósito de explicar essas dificuldades é que se encontram, espalhados pela cidade, outdoors com esta chamada: BLOQUEO: El genocídio más largo de la Historia.

Para não alongar a conversa, que poderia se estender por muitas linhas, abstenho-me de tecer comentários político-ideológicos. Apenas quero enfatizar que, ao voltar de Cuba, ou se vem contra ou a favor. Fui a favor e voltei com a mesma tendência, ressalvadas algumas restrições. Ainda nessa linha, consultei um amigo economista que mora em São Paulo, onde é professor e doutrinador, sobre o que aconteceria se o Brasil sofresse o mesmo tipo de embargo econômico imposto a Cuba pela nação mais poderosa do mundo. Respondeu-me ele que o Brasil quebraria em pouco tempo. Como se vê, é uma briga de um elefante com uma formiga. Um elefante sádico, não há dúvida.

Coincidentemente com essa matéria, li pelo jornal O Globo, edição de 20 de maio passado, a notícia de que uma carta foi dirigida a Obama por 44 ex-altos funcionários do governo dos EUA, pedindo a ampliação das viagens de americanos ao país caribenho e um novo impulso às relações empresariais.

Espero não deixar nestas linhas a impressão de que faço uma análise ingênua de quem desconhece  os meandros políticos daquela ilha. Atenho-me apenas em externar o lado cultural, humano e natural que impressiona qualquer visitante de Havana. E não estou só nessa posição. Em 2013, quase três milhões de turistas visitaram Cuba. E continuam a chegar diariamente. É uma prova de que alguma coisa tem ali para atrair tanta gente.

Enquanto Times Square satisfez meus olhos e minha ânsia consumerista, Havana tocou-me um sentimento mais profundo, aquele que guardamos e se compraz diante de certos valores que elegemos como mais verdadeiros.

 Se possível, espero voltar para tomar um mojito na Bodequita del Medio e passear pelo Malecón, sem deixar de banhar-me nos verdes mares de Varadero.

Lourival Serejo

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Lourival Serejo

O desembargador Lourival de Jesus Serejo Sousa nasceu na cidade de Viana, Maranhão. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em 1976, especializando-se em Direito Público, pela Faculdade de Direito do Ceará,
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