Casamentos Líquidos

“Não existe relacionamento humano mais complexo do que aquele que aparece com o casamento”.  João Mohana

 

Ao comparecer à audiência de tentativa de conciliação da antiga separação judicial, Maria do Carmo ainda tinha forte esperança de reverter a situação e ter seu marido de volta para casa e para ela. Por força desse sonho, ficou decepcionada quando o juiz, que já estava no terceiro casamento e tinha diante de si uma pauta com muitas audiências, foi logo dizendo: “Vamos logo, depressa, a vida é assim mesmo. Concilia ou não? O casamento é como pirulito: começa no açúcar e termina no palito”.  O marido não aceitou a conciliação e o casamento de oito anos acabou-se ali mesmo. Ela abaixou a cabeça e lembrou-se do dia do seu casamento, quando sua avó profetizou: “Vocês nasceram um para o outro. Casamento e mortalha, no céu se talha”.

Todas as separações e divórcios se parecem. Cada um tem uma carga emocional e traumática particular, mas, no fundo, o resultado é o mesmo: o fim do casamento. Antes, bem antes, só a morte tirava a mulher do homem e o homem da mulher. Se esta sofria com medo da morte, tinha o consolo de saber que não veria o marido com outra, enquanto estivesse viva. Hoje, não: ela não só o vê com outra ou mais outra, como, às vezes, convive com elas, e até se tornam amigas.

 

O IBGE divulgou recentemente os dados sobre divórcio e casamento, que soaram como alarme, demonstrando o aumento dos divórcios em 37%, enquanto o casamento aumentou apenas 5%. Ficou constatado, também, que a duração dos casamentos é de dez a dezesseis anos.

Com esses dados, podemos concluir que é o fim da família? O fim dos bons costumes, como disse um articulista da Folha? É o fim do casamento?

Não é assim. O casamento não acabou nem acabará, enquanto houver pessoas dispostas a constituírem uma família com base no afeto e num projeto de vida. Para manter-se vivo, entretanto, o casamento precisa atualizar-se ou as pessoas precisam mudar a mentalidade e desromantizar o enlace matrimonial, retirando a perspectiva da eternidade e do encontro com o cônjuge perfeito.

O filósofo polonês Zygmunt Bauman, hoje na moda, traz o conceito de liquidez para toda a sociedade pós-moderna, inclusive para tratar do amor. Para isso dedicou uma de suas obras para falar sobre a fragilidade dos laços humanos com o sugestivo título de “Amor líquido”. Para ele, “o amor é uma hipoteca baseado num futuro incerto e inescusável”. Vinicius de Moraes foi o precursor dessa ideia, ao cantar, num dos seus mais conhecidos sonetos, a eternidade condicional do amor (“infinito enquanto dure”).

O Brasil tornou-se, agora, após a Emenda Constitucional nº 66/2010, um dos países em que o divórcio é obtido com maior facilidade. Não interessa mais nem saber se houve algum culpado pelo rompimento do enlace. Basta o fim do amor ou mesmo o fim da relação, que pode acabar na noite de núpcias. No outro dia, já podem providenciar o divórcio.

Para alguns mais exagerados, não é suficiente esse desembaraço. Querem mais: o casamento precisa ter duração limitada, pré-fixada. De preferência, dois anos, como está sendo debatido no México. Passando os dois anos, não há mais necessidade de divórcio: o casamento está desfeito. Quem deseja continuar junto, casa de novo.

Recente pesquisa constatou que um terço dos divórcios pedidos, na Inglaterra, estão ocorrendo por traições virtuais, ocorridas no facebook. No Brasil, já são inúmeras as separações por esse mesmo motivo. É uma traição fútil, mas que deixa o vestígio da palavra escrita. Não há desculpa que supere a falta.

Esse dado demonstra novo desafio para o casamento. A onda da comunicação agigantou-se como um tsumani ameaçador... e o casamento que se quebre.

Já é tempo, também, de os padres reverem seus sermões nas celebrações de casamentos, tão desconformes estão com a realidade. Pior é quando não avisam ao sacerdote que o noivo já veio de um divórcio. E ali, como gato escaldado, ele tem que ouvir uma pregação sobre a indissolubilidade do matrimônio e regras e mais regras para manter um casamento em vigor, até à morte.

A liquidez dos casamentos desafia o casal a descobrir, a cada dia, uma maneira de conviver e manter o enlevo de uma vida compartilhada com a intimidade do outro.  Tom Cruise declarou, em entrevista,  que se apaixona por sua mulher a cada dia, mesmo depois de um casamento de 6 anos.

Lembrei-me de um amigo de Macapá cuja mulher gostava muito de Guaraná Jesus e, numa das minhas viagens àquela terra, levei uma embalagem que se compra no aeroporto, com alguns frascos do nosso querido refrigerante. Ao encontrá-lo, em plena assembleia de um congresso, junto de uma mulher (como tenho dificuldade em gravar feições, não sabia se era a esposa dele), disse-lhe que havia levado Guaraná Jesus. Notei que ele tomou um susto e me olhou desconfiado, apressando-se em dizer que iria mandar buscar o presente no hotel. Logo fiquei sabendo que aquela mulher não era a sua esposa, mas outra  recente substituta. A primeira já se evaporara em seu sonho cor de rosa.

Como o tema é muito polêmico e desperta muitas discussões, resolvi encerrar com a evocação de uma conhecida cantiga de roda que fala do anel de vidro que se quebrou: “O anel que tu me destes/ era vidro e se quebrou. /O amor que tu me tinhas/ era pouco e se acabou”. Talvez seja a melhor metáfora para marcar essa fragilidade das alianças matrimoniais em tempo de pós-modernidade.

Por: Lourival Serejo

Publicado no Estado do Maranhão, de 15. 1. 2012.

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Lourival Serejo

O desembargador Lourival de Jesus Serejo Sousa nasceu na cidade de Viana, Maranhão. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em 1976, especializando-se em Direito Público, pela Faculdade de Direito do Ceará,
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