OS TOPOI DA MINHA FORMAÇÃO

     A educação dos filhos passou por grandes transformações, nos últimos anos. Não se admite mais qualquer prática que crie embaraços à liberdade de a criança crescer num lar sem advertências ou restrições a todo momento. Até do trabalho de ficar imaginando coisas mirabolantes a criança é poupada. A televisão e os jogos de videogame ocuparam o lugar da imaginação.

     Numa visão sociológica, sem qualquer toque de saudosismo, apenas para uma análise do comportamento humano e de informação para os jovens, lembro dos topoi que marcavam a formação de uma criança, em tempos passados.  Se vínhamos chorando pedir socorro para a mãe porque havíamos caído, ela olhava e dizia “quando casar passa.”  E voltávamos curados com aquela promessa.

     Qualquer ação que fazíamos, surgia uma regra de alerta, repreensão ou mesmo de sabedoria. Coisas de antanho, aprendidas com avós e bisavós, dos tempos da Guerra do Paraguai ou dos além-mares e reinos distantes.

     Ao ler os livros de Mia Couto e outros autores de língua portuguesa, sempre me deparo com algumas dessas regras de sabedoria popular, o que comprova que a origem dos nossos ditados é de Portugal e da África.

     Mamãe eu quero ir ver a corrida de canoas. Não, boa romaria faz quem em sua casa vive em paz. Depois, pode acontecer alguma coisa. Mamãe, a professora me botou nos últimos bancos. Não tem problema, os últimos serão os primeiros. Mamãe eu vou ao jogo com Mateus e Reinaldo. São filhos de quem? Daquele homem que engana todo mundo? Não, dize-me com quem andas e te direi quem és.

     Passando para o pai, outras eram as regras. Levanta menino, está tarde, quem madruga Deus ajuda. Está com preguiça de fazer o trabalho? Esta é a casa do bom homem; quem não trabalha não come. Mas, esse trabalho é cansativo. Não importa, o trabalho é que leva a gente pra frente. Mas eu fiquei de jogar com meus amigos. Depois vais, primeiro a obrigação, depois a devoção. Com meu resmungo, ele completava: cada coisa a seu tempo.

     A tia paterna, que morava conosco, era de outra vertente filosófica. Estava sempre com seu reservatório cheio de aforismas: Em terra de sapos, de cócoras com eles; casamento e mortalha no céu se talha; água mole em pedra dura tanto bate até que fura; quem não tem cão, caça com gato; quem não arrisca, não petisca; quem ri por último, ri melhor; o futuro a Deus pertence; Deus escreve certo por linhas tortas; devagar se vai ao longe; cada macaco no seu galho; gato escaldado tem medo de água fria; a pressa é inimiga da perfeição; águas passadas não movem moinho; quem planta, colhe; antes só que mal acompanhado; casa dos pais, escola dos filhos.

     Dona Isabel, uma senhora descendente de escravos, de cabelos embranquecidos pela idade, e que estava sempre lá em casa, onde passava meses e depois sumia, também tinha seus dogmas de sabedoria. E os dizia com sua face enrugada e séria, às vezes até nos repreendendo: Deus dá o frio conforme o cobertor; os humildes serão exaltados; quem ri por último ri melhor; patada de galinha não mata pinto; há males que vem para o bem; água e azeite não se misturam; cão que late não morde; cada época com seu uso, cada roca com seu fuso; águas paradas não movem moinhos; pau que nasce torto, não tem jeito, morre torto; saco vazio não se põe em pé.

     E assim, acumulando essas lições em nossas mentes, íamos formando uma cartilha ética invisível que nos orientava em todas as ocasiões. Hoje, aqui e acolá, me vejo reproduzindo alguns desses topoi. Mas, já não significam nada.

     Por: Lourival Serejo

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Lourival Serejo

O escritor Lourival de Jesus Serejo Sousa nasceu na cidade de Viana, Maranhão. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em 1976, especializando-se em Direito Público, pela Faculdade de Direito do Ceará, em 198
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