OS CRIMINOSOS E A CREDULIDADE ALHEIA

     Quem já passou dos sessenta anos deve lembrar de um samba antigo, cantado por Alcides Gerardi, no qual havia uma estrofe que dizia: “Camelô na conversa ele vende algodão por veludo. Não tem bronca porque neste mundo tem bobo pra tudo”.

     Naquele tempo não havia redes sociais nem a sociedade era subjugada pela inteligência artificial e suas inovações. Apenas os jornais, à disposição de poucos, circulavam pelas ruas das cidades.

     Hoje o que mais se encontra são pessoas “sabidas” e bem informadas, em todas as classes sociais.

     Então, por que são enganadas com facilidade pelos golpes dos estelionatários da internet?

     Acontece que essa sabedoria moderna não basta para criar uma consciência que alerte para as armadilhas que a constelação virtual criou. E tornam-se bobos ante os golpes que estão sendo aplicados continuamente.

     No último mês de março, fui surpreendido com a notícia de que estavam usando meu nome para pedir dinheiro a pessoas que detinham alguma importância política nas respectivas cidades. E o pior: estavam obtendo êxito nas abordagens, usufruindo milhares de reais.

     É difícil imaginar que pessoas com quem nunca tive relacionamento acreditem nas conversas dos estelionatários que se passavam por mim, no WhatsApp, com a minha foto, em mensagem de áudios, numa clonagem grosseira.

     Uns dias antes, vários colegas da magistratura tiveram seus nomes usados em mensagens de igual teor, pedindo ajuda para suprir alguma necessidade.

     Depois que prenderam a quadrilha, em Goiânia, em declaração à polícia, os aplicadores dos golpes confessaram todos os detalhes dos crimes, inclusive que estavam tendo bons lucros atuando no Maranhão.

     Tratava-se de uma “vera famiglia”, à italiana (marido, mulher e filho), sendo que o chefe já havia passado 14 anos preso e aprendera todo o esquema na penitenciária.

     O que surpreende nessa história é que a reiteração desses golpes não é suficiente para alertar as pessoas, que vão continuar acreditando nas mentiras e depositando o dinheiro que é pedido.

     O que fazer então? A sofisticação da inteligência artificial permitirá, cada vez mais, ardis desse gênero. Inclusive já pode surgir na tela do seu celular a sua imagem falando normalmente, como se fosse você mesmo pedindo dinheiro a um suposto amigo.

     Teoria. Só vejo um meio de defender-se dessas armadilhas: é procurar nas lições de Descartes e passar a duvidar de tudo. Mas de tudo mesmo.

     Prática. A pessoa que já sofreu um golpe desses, ouvindo a imitação da voz do filho chorando, pedindo para não deixá-lo e pagar o que estão pedindo, naquela hora, teria condições e equilíbrio emocional para recorrer a Descartes? Difícil, muito difícil. E os golpes continuam. E vão ficar cada vez mais convincentes.

     Por: Lourival Serejo

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Lourival Serejo

O escritor Lourival de Jesus Serejo Sousa nasceu na cidade de Viana, Maranhão. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em 1976, especializando-se em Direito Público, pela Faculdade de Direito do Ceará, em 198
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