FEMINICÍDIO, ESSA OUTRA PANDEMIA

     Ninguém sabe explicar como esse vírus está se propagando de maneira tão geral e tão rápida em todo o país. E o pior é que contra ele não tem vacina.

   Não adiantou criar um tipo penal específico nem aumentar a pena. O instinto assassino contra as mulheres parece que se apoderou dos homens como se, de repente, ficassem possuídos pelo demo. Então, eles não perdoam, matam.

     Li, recentemente, dois romances que têm o feminicídio como tema. O primeiro, de uma autora argentina, Selva Almada, com o título “Garotas mortas”; o segundo, da escritora brasileira Patrícia Melo, intitula-se “Mulheres empilhadas.” Ambos tratam de casos dramáticos, histórias que se repetem aqui ou na Argentina, referentes a homens violentos, ciumentos, psicopatas que matam as mulheres por qualquer ofensa à sua postura machista. Na Colômbia é onde a violência está mais acentuada, com elevados índices de feminicídios. As histórias trazem narrativas tristes pela frieza calculada dos assassinatos. Não satisfeitos com a violência silenciosa a que sujeitam as esposas e companheiras em casa, de repente, tornam-se violentos e matam. Os filhos não importam para eles. Outro fator curioso é que esse tipo de violência tem ocorrido em todas as classes sociais, inclusive entre pessoas cultas.

 Temos feito muitas campanhas de conscientização de jovens, trabalhadores da construção civil, homens em geral, para convencê-los da igualdade de gênero, do respeito à dignidade de cada pessoa. Mas os efeitos têm sido tímidos. Acredito que essas campanhas devem começar pelos colégios para surtirem efeito posterior. Talvez, no momento, seja preciso uma campanha mais agressiva, tendo como alvo, não só os homens, mas as próprias mulheres, que se iludem com o “arrependimento” deles depois do primeiro ato e, na segunda vez, perdem a vida.

    Minha avaliação sobre o feminicídio deixou de ser teórica, abstrata, para ser amargurada. Há pouco mais de um mês, sofremos os efeitos de um feminicídio na família. Uma sobrinha da minha mulher, psicóloga conceituada em Brasília, foi asfixiada brutalmente pelo marido. Ela já tinha sido beneficiada, antes, com uma medida protetiva, mas caiu na conversa do arrependimento, na transformação dele. Foi ludibriada e perdeu a vida. Lembro-me de que fui ao casamento deles. Dois meninos órfãos estão sem entender o que aconteceu.

     Por isso, as campanhas devem também atingir as mulheres. Perdoar a primeira agressão é perigoso. A segunda vez pode ser fatal.

  Então surge novo perigo: o homem abandonado também mata porque seu machismo não admite a escolha da mulher para ser feliz. Em boa hora, foi retirada dos processos de separação e divórcio a busca da culpa, porque o novo direito de família entendeu que o Estado não pode interferir na opção dos cônjuges, mesmo em caso de adultério. A busca da felicidade pessoal é um direito de todos. Esse é ponto nodal dos homens violentos: não suportam as manifestações de autonomia da mulher. Ainda reclamam a sujeição àquele ensinamento da conformação: se teu marido bate, perdoa.

    Como se percebe, como se vê diariamente pelos jornais, o problema é muito complexo e cresceu tanto que se tornou caso de política pública. E com urgência. Os órfãos dos feminicídios são candidatos fáceis a engrossarem a fila de viciados para superarem o trauma que sofreram. Aí, então, o problema alcança um patamar social maior.

    Antes desta crônica ser publicada, alguma ou algumas mulheres perderão a vida neste vasto país. Até a presente data, neste mês de agosto, 32 mulheres foram assassinadas no Maranhão. Quase cinco por mês. É uma estatística que só tende a crescer.

     A sociedade, os governos, as instituições, todos devem unirem-se para combater essa pandemia. Enquanto isso, as mulheres devem ficar atentas para esta receita da poeta maranhense Lindevania Martins: “é preciso enfrentar/ o medo/ que temos deles/ e o medo/ que eles têm de nós.”

     Por: Lourival Serejo

     Publicado em: OEstadoMA

 

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Lourival Serejo

O escritor Lourival de Jesus Serejo Sousa nasceu na cidade de Viana, Maranhão. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em 1976, especializando-se em Direito Público, pela Faculdade de Direito do Ceará, em 198
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