A AGONIA DAS LIVRARIAS

     Brasília ficou sem o melhor atrativo para mim, quase sem graça. E pensar que eu já tinha um plano para minha aposentadoria: um sábado por mês, tomaria o avião da madrugada e voltaria no vôo da noite. Essa viagem seria para passar o dia na Livraria Cultura do shopping Iguatemi.

     Agora, tomei conhecimento de que a livraria fechou, assim como a Cultura do Parque Cidade. Assim como a Saraiva do Pátio Shopping e mais outras e mais outras, em todo o Brasil.

     Como uma queda de dominó, estão acabando as livrarias. As lojas da Cultura de São Paulo estão agonizando. Várias lojas da Saraiva fecharam. Enquanto isso, a americana Amazon domina o mercado livreiro com sua gigantesca livraria de livros físicos e virtuais.

     Ocorre que esse fenômeno não está ocorrendo só no Brasil. Em todo o mundo, grandes livrarias estão fechando, inclusive as tradicionais.

     Aqui, em São Luís, recentemente fechou a livraria do Golden Shopping, restando a Themis, no Tropical; a Literarte, e as lojas da Leitura, o que ainda é um privilégio para nós.

     Há poucos dias, fiquei admirado quando tirei de uma prateleira da minha biblioteca o livro El problema de la soberania, de Harold Laski (edição da Argentina), e, na folha de rosto, deparei-me com um selo referente aos 100 anos daquela livraria: “Livraria Universal 100 anos. Ramos D`Almeida.” Imaginem uma livraria, em São Luís, com 100 anos de funcionamento.

     Enquanto as livrarias fecham, os sebos mantêm-se estáveis. Hoje temos bons sebos em São Luís, por onde sempre passo como uma traça atrás de velhos sabores.

     No interior do estado, por onde vivi, registro a existência de uma livraria em Viana, a Livraria Assunta, mantida pela Diocese, com todos os títulos da Agir, da Vozes etc. Em Arari, deparei-me com os restos de uma livraria do Padre Brand e Silva. Lá, ainda encontrei poucos, mas bons títulos, como o Tratado de Sociologia, de Recásens Siches. Em Imperatriz, assisti o ocaso de duas livrarias de médio porte, com um bom estoque.

     O que me intriga nesse processo de fechamento de livrarias é a postura do governo em ficar indiferente à crise do mercado de livros, ao contrário do que ocorre quando outras atividades do comércio e indústria que, ao denunciarem suas dificuldades, são prontamente atendidos com a abertura dos cofres oficiais. Esquecem-se de que livro é também investimento. Sem educação nenhum país se desenvolve. Leitura é educação permanente e qualificada.

     Jorge Carrión, autor de um livro sobre livrarias (Livrarias, uma história da leitura e dos leitores) descreve as curiosidades e os slogans das principais e mais antigas livrarias do mundo. No Brasil, ele ressalta a Livraria Da Vinci, no Rio de Janeiro, que, por sinal, está passando grande dificuldade. Para esse autor, uma livraria condensa o mundo.

     Em 2014, a Coca-Cola divulgou uma campanha na Espanha, com o seguinte slogan: “Cada vez que um bar fecha as portas, perdem-se, para sempre, cem canções.” Tomando essa ideia como inspiração, encerro esta crônica com esta frase de efeito: a cada livraria que se fecha, multiplicam-se os espíritos obtusos da nossa sociedade.

     Por: Lourival Serejo

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Lourival Serejo

O escritor Lourival de Jesus Serejo Sousa nasceu na cidade de Viana, Maranhão. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em 1976, especializando-se em Direito Público, pela Faculdade de Direito do Ceará, em 198
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