SOLIDÃO

     As primeiras imagens que me aparecem quando ouço falar em solidão são a de um deserto e a do mar. Na primeira, vejo um beduíno perdido naquela imensidão de areia; na segunda, vejo um náufrago numa boia tentando ver alguma ponta de terra distante.

     Pensando com mais atenção, percebo que a solidão tem um leque de modalidades, todas com o mesmo denominador: o isolamento.

     A solidão que fica quando o amor acaba, em qualquer das hipóteses levantadas por Paulo Mendes Campos, pode levar a uma depressão e, muitas vezes, até ao suicídio.

     Outro tipo de solidão que me comove é a solidão da velhice. Quantos idosos abandonados, loucos por alguém para ouvi-los; ávidos por um abraço, e a perspectiva do fim diante deles. Perdem-se nas recordações, mas não têm ninguém para compartilhar seus momentos felizes deixados para trás. Ninguém tem mais tempo nem paciência para ouvir o outro.

    Imagino quanto devem amargar na solidão os ex-jogadores de futebol, os ex-artistas, os ex-isto os ex-aquilo, que gozaram de tanta popularidade, no passado, e tornaram-se hoje desconhecidos, vencidos pelo tempo. Quem melhor descreveu e cantou essa situação foi Moacyr Franco, na Balada nº 7, para Mané Garrincha (cadê você, cadê você, você passou...)

     Em tempos de Natal, quando a televisão expõe o movimento do comércio, a multidão fazendo compras, luzes para todos os lados, ofertas de todo tipo de presente, imagino quanto é dolorido, na noite do dia 24 de dezembro, uma pessoa encontrar-se só, sem ter a quem dar ou de quem receber um presente. Deve ser uma solidão profunda, como a de um doente deixado num leito de hospital.

     A modalidade mais curiosa de solidão, a meu ver, á aquela em que o sujeito se encontra no meio de uma multidão, numa viagem, numa rua movimentada, e sente-se sozinho, um estranho naquele ambiente, ansiando pelo encontro com o outro e só se deparando com um vazio interior, uma dolorida ausência de pertencimento.

     A solidão mais atual é a que está consumindo os jovens e adultos, provocada pela obsessão e pelo vício do mundo fantasioso dos aplicativos, jogos e toda a parafernália da inteligência artificial. Sem controle, enroscando-se em si mesmos, perdem toda a capacidade de comunicar-se, estiolam-se trancados em seus quartos e, quando andam pelas ruas, não se deparam com o rosto do próximo porque a luminosidade do celular é mais atraente do que um rosto. O perigo dessa solidão é que ela não é percebida, seu efeito é retardado, e o solitário alienado vive temporariamente feliz em sua bolha mágica.

     A pandemia que atravessamos reuniu as características de todos esses tipos de solidão numa série de temporadas que ainda não tiveram fim.

     Por: Lourival Serejo

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Lourival Serejo

O escritor Lourival de Jesus Serejo Sousa nasceu na cidade de Viana, Maranhão. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em 1976, especializando-se em Direito Público, pela Faculdade de Direito do Ceará, em 198
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