QUID EST VERITAS?

     A pergunta que Jesus não respondeu a Pôncio Pilatos (O que é a verdade? João, 18:38) está mais atualizada do que nunca. Se Ele não respondeu naquela época, imagino hoje como seria difícil a seu inquiridor entender a resposta.  

     Depois de anunciarem a morte de Deus, conforme comentei na crônica anterior, agora anuncia-se a morte da democracia e da verdade. Recentemente adquiri, por curiosidade, o livro de um médico francês, Laurent Alexandre, com o título A morte da morte. Vejam como o mundo está ficando complicado e sem coerência.

     Essas perplexidades me ocorreram depois de ler A morte da verdade, de autoria da premiada crítica literária Michiko Karutami.

     Partindo da análise do desgoverno de Trump (o livro tem como subtítulo: Notas sobre a mentira da era Trump),  a autora demonstra o empenho do presidente americano em criar uma série de fake news e instalar uma corte de mentiras.

     A circulação incessante de mensagens falsas pelas redes sociais é um fator preponderante na agonia da verdade. A disseminação viral, o boca a boca eletrônico e as mensagens replicadas são os meios fáceis de eliminar a verdade. Sem o mínimo de consciência crítica, o usuário comum das redes sociais alimenta a inverdade com a propagação sucessiva de um fato sem qualquer comprovação. Esse é o poder incontrolável da web e dos sofisticados meios de propaganda.

     Até sites especiais já existem para atestarem se esta ou aquela notícia é verídica ou falsa. Qual o futuro desse reino da mentira?

     Creio que a Igreja Católica, com a extensão da sua capilaridade, pode contribuir para orientar seus adeptos a se conscientizarem desse momento crítico e se fortalecerem para enfrentar essas inverdades que proliferam a cada dia, restabelecendo os rumos de uma vida de plenitude cristã.

     A carência de uma educação básica, formadora de consciências transitivas, como pretendia Paulo Freire, contribui para alimentar esse clima de mentiras, pondo em perigo a democracia, formando mais aderentes da servidão voluntária, em torno de governos populistas.

     A autora de A morte da verdade faz uma análise panorâmica da teia que propaga  notícias falsas e da receptividade que esses “fatos alternativos” encontram entre pessoas de todo grau de instrução. Em seu profundo estudo, cita vários aliados às suas conclusões, dentre os quais destaco esta afirmação do russo Garry Gasparov (ele mesmo, o ex-campeão de xadrez): “O objetivo da propaganda moderna não é apenas desinformar ou disseminar ideais específicas. É esgotar o pensamento crítico para aniquilar a verdade”.

     Está claro, portanto, que, a cada dia, com a evolução das técnicas de comunicação, torna-se mais difícil saber de que lado está a verdade, mesmo que, às vezes, pareça tão óbvia, como a resposta que Jesus poderia ter dado a Pilatos, segundo conhecido anagrama: “A verdade é o homem que está diante de ti”.

Por: Lourival Serejo

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Lourival Serejo

O desembargador Lourival de Jesus Serejo Sousa nasceu na cidade de Viana, Maranhão. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em 1976, especializando-se em Direito Público, pela Faculdade de Direito do Ceará,
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