O CONTO DA AIA

     Por muito tempo resisti à idéia de ler O Conto da Aia, de Margaret Atwood, pela reserva que tenho em perder tempo com a leitura de best sellers. Ocorre que essa obra cresceu tanto nos Estados Unidos como aqui, no Brasil, que fui obrigado a desvendar seu mistério. Depois de muito tempo, ainda persiste entre os mais vendidos, na lista semanal da Veja e da Folha de São Paulo.

     O livro não é novo. Foi lançado em 1985, no Canadá, onde reside a autora. A explicação do seu sucesso, nos Estados Unidos, deveu-se à eleição de Trump com seus planos ameaçadores à democracia americana.

     O leitor atento logo descobre a semelhança com o romance de George Orwell ­– 1984. E, em seguida constata que não é a primeira pessoa que chegou a essa identificação. Todos os críticos detectaram esse ponto em comum, evidentemente com as diferenças de estilo e enredo. Na linguagem moderna, consagrou-se em dizer que ambos são romances distópicos.

     Distopia é, como pós-verdade e empoderamento, um vocábulo do momento, que significa antiutopia, ou seja, o contrário da utopia. Enquanto esta se refere a um lugar ideal que se almeja, distopia é um lugar violento, complicado, em que o cidadão é privado da liberdade.

     Existem outras obras de ficção consideradas distópicas, como o impressionante livro de Ray Bradbury, Fahreneit 451, que também está na onda. Se fosse usar a terminologia jurídica, diria repristinado.

     Estou às voltas com a leitura do livro de Zygmund Baumann, o filósofo da sociedade líquida, com um título parecido: Retrotopia. É mais um termo novo (negação da negação da utopia, com vista para o passado) para incorporar-se ao vocabulário do stress da comunicação atual.

     Estou quase esgotando meu tempo e ainda não falei nada sobre O Conto da Aia.

     A alegoria política tratada pela obra de Margaret Atwood se passa na República de Gilead, onde vigora um regime totalitário e teocrático que controla todos os passos de cada cidadão e prega a volta dos valores tradicionais.

     Preocupados com a queda da natalidade, os Comandantes selecionam um grupo de mulheres – as Aias – aptas a procriarem, as quais são submetidas ao ritual de estupros freqüentes, com o apoio e assistência das próprias esposas estéreis. Essas crianças, assim geradas, são  chamadas de  “filhos de Jacob”, em alusão à personagem bíblica.

     Como em 1984, a notícia de uma guerra externa fantasiosa é usada para manter o sentimento patriótico e coeso da população. Em Gilead, todos os movimentos são cronometrados, sem espaço para expressões individuais.

     Para a vigilância do poder totalitário existe uma hierarquia de autoridades, identificadas como Tia, Guardião e Olho. As saudações entre as Aias são curtas e padronizadas, sempre com invocações religiosas.

     Naquela República, sob as mais surpreendentes acusações há execuções constantes, com a exposição dos cadáveres para lembrar à população do dever de obediência. Os gays são executados a pretexto de “traição por falsidade de gênero”.

     Apesar do controle da população, existe em Gilead uma minoria que sustenta uma resistência organizada que almeja o retorno da democracia. Agindo clandestinamente, estão sujeitos à execução sob qualquer suspeita.

     O romance é narrado na primeira pessoa pela Aia Offred. A leitura, às vezes monótona, é sustentada pelo estilo da escritora e pelo interesse no desfecho.

     No momento em que as democracias estão correndo risco por todos os lados do planeta, O Conto da Aia serve de alerta para nos mantermos vigilantes contra as astúcias dos inimigos da liberdade. Esse é o motivo por que uma obra ficcional desse porte, lançada em 1985, tornou-se hoje um best-seller.

Por: Lourival Serejo

Publicada no jornal O Estado do Maranhão, em 19.1.2019

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Lourival Serejo

O desembargador Lourival de Jesus Serejo Sousa nasceu na cidade de Viana, Maranhão. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em 1976, especializando-se em Direito Público, pela Faculdade de Direito do Ceará,
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