A FLOR VERMELHA

     Raramente se encontra um título tão bem posto como o que Yuri Costa pôs em seu ensaio biográfico sobre Celso Magalhães: A flor vermelha. Em recente crônica, fiz o mesmo elogio para Bruno Tomé, com o seu Rei Zulu, a majestade bárbara.

     Como bem esclarecido no prefácio, A flor vermelha refere-se ao costume de Celso Magalhães de usar, na botoeira do paletó, uma flor vermelha, do que restou a expressão "a flor do Celso". Essa informação, que consta na epígrafe do livro de Yuri, é prestada por Graça Aranha, em seu livro autobiográfico, O meu próprio romance.

     Interessei-me pela obra de Yuri por ser também um estudioso de Celso Magalhães, meu conterrâneo de Viana, e que teve uma vida, embora curta, plena de ações, com influência em várias áreas do conhecimento, merecendo aplausos em todo o país. Outro fator que me chamou a atenção foi o manejo técnico das referências e a extensão das fontes pesquisadas pelo autor.

     Coincidiu essa publicação com meu empenho em publicar, pela Academia Maranhense de Letras, o romance inacabado de Celso Magalhães, Um estudo de temperamento, até hoje só lido em intermináveis xerocópias de única publicação que teve pela Revista Brasileira, em 1881.

     Como historiador, Yuri preocupou-se em explorar a trajetória de Celso que envolvesse o período de sua vida no contexto da história do Maranhão e na campanha abolicionista. A sequência de fatos ocorridos forma uma tela que situa o leitor naquele ambiente político e social vivido pelo biografado. A esse respeito, Cristovão Tezza, em palestra sobre literatura e biografia, publicada em seu último livro, Literatura à margem, traz apropriada justificação para a metodologia usada em A flor vermelha: "Toda biografia recorta, desse mundo que afinal é o evento histórico completo, o seu foco, o que interessa revelar (um breve período, uma época, a vida familiar, o aspecto político etc). Delimitada essa moldura, o império dos fatos deverá ser soberano".

     Como se não bastasse seu valor próprio, a obra de Yuri ainda veio referendada pelo prefácio da respeitável historiadora Regina Farias, minha estimada colega do Colégio Universitário.

     A princípio, eu retiraria a introdução para maior leveza da obra, porém, dentro do objetivo a que se propôs o autor, ela se tornou indispensável, até para efeito didático.

     A visão do "sumário" da obra de Yuri já permite ao leitor apreender o alcance que o esboço biográfico de Celso pretende atingir. Talvez o melhor itinerário de leitura seja começar pelo fim, pelas "considerações finais", onde se lê esta advertência do autor: "É preciso, porém, encarar a biografia de Magalhães afastando-se de extremos. Sua existência não pode ser reduzida à vida de um sujeito-tipo, cuja trajetória espelhou um contexto. Por outro lado, não possui Celso uma experiência autônoma, como se pudesse estar desvinculado de elementos que influenciaram suas ideologias e seu comportamento. É necessário cuidado, ainda, para que os diferentes fatos da vida do personagem não sejam interpretados como o tracejado de um percurso linear e marcado, desde sempre por um sentido".

     Pelas publicações que se encontram hoje, na livraria da AMEI, no shopping São Luís, é fácil constatar que o Maranhão elevou-se ao nível do Rio Grande do Sul, onde há um acentuado número de obras dedicadas à história e aos vultos ilustres daquele estado. Esse fenômeno editorial a que estamos assistindo faz engrandecer a inteligência maranhense e tem contado – é bom que se diga – com o pronto apoio das Secretarias de Cultura e de Educação do Estado Maranhão.

     Há, como se pode perceber da leitura do livro de Yuri, motivos para não só parabenizá-lo, como também para comemorar o surgimento de mais uma obra com notável contribuição ao estudo da nossa história e, em particular, de uma personalidade que se projetou para todo o país, como foi Celso Tertuliano da Cunha Magalhães.

Por: Lourival Serejo

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Lourival Serejo

O desembargador Lourival de Jesus Serejo Sousa nasceu na cidade de Viana, Maranhão. Filho de Nozor Lauro Lopes de Sousa e Isabel Serejo Sousa. Formou-se em Direito, em 1976, especializando-se em Direito Público, pela Faculdade de Direito do Ceará,
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